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1901 2012
Prize category:
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The Nobel Prize in Literature 1998
José Saramago
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Nobel Lecture
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| José Saramago. Copyright © Nobel Media AB 1998 Photo: Hans Mehlin |
Copyright © Svenska Akademien 2011
De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz
O homem mais sábio que conheci em toda
a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da
madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras
de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo,
levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade
se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus
avós maternos, da pequena criação de porcos que,
depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga
de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se
Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram
analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite
apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro
da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais
débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas
grosseiras, o calor dos humanos livrava os animalzinhos do
enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem
gente de bom carácter, não era por primores de alma
compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os
preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger
o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a
vida, não aprendeu a pensar mais do que o
indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô
Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas
vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o
lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de
ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço
comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às
escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó,
também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a
recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir
para a cama do gado. E algunas vezes, em noites quentes de
Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José,
hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira." Havia outras duas
figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais
antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa,
a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita
que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que
significava ... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da
árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente,
escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra
direcção, tal como um rio correndo em silêncio
pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via
Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe
chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a
noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu
avô ia contando: lendas, aparições, assombros,
episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e
pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de
memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que
suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava
quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava
a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta
que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele
calculadamente metia no relato: "E depois?" Talvez repetisse as
histórias para si próprio, quer fosse para não as
esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias
novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem
será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô
Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando,
à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me
despertava, ele já não estava ali, tinha saído
para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir.
Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na
aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda
com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do
quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da
casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô,
punha-me na frente uma grande tijela de café com
pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se
eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do
avô, ela sempre me tranquilizava : "Não faças
caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que
a minha avó, embora fosse também uma mulher muito
sábia, não alcançava as alturas do meu avô,
esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto
José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas
com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quanto o meu
avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem
feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também
acreditava em sonhos. Outra coisa não podería
significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da
sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as
estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse
dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho
tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena
de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que
tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a
receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a
consolaçao da beleza revelada. Estava sentada à porta
de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no
mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se
fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de
ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este
foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de
histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar,
foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma,
abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as
tornaria a ver.
Muitos anos depois, escrevendo pela primeira vez sobre este meu
avô Jerónimo e e esta minha avó Josefa (faltou-me
dizer que ela tinha sido, no dizer de quantos a conheceram quando
rapariga, de uma formosura invulgar), tive consciência de
que estava a transformar as pessoas comuns que eles haviam sido
em personagens literárias e que essa era, provavelmente, a
maneira de não os esquecer, desenhando e tornando a desenhar
os seus rostos com o lápis sempre cambiante da
recordação, colorindo e iluminando a monotonia de um
quotidiano baço e sem horizontes, como quem vai recriando,
por cima do instável mapa da memória, a irrealidade
sobrenatural do país em que decidiu passar a viver. A mesma
atitude de espírito que, depois de haver evocado a
fascinante e enigmática figura de um certo bisavô
berbere, me levaria a descrever mais ou menos nestes termos um
velho retrato (hoje já com quase oitenta anos) onde os meus
pais aparecem: "Estão os dois de pé, belos e jovens, de
frente para o fotógrafo, mostrando no rosto uma
expressão de solene gravidade que é talvez temor diante
da câmara, no instante em que a objectiva vai fixar, de um e
do outro, a imagem que nunca mais tornarão a ter, porque o
dia seguinte será implacavelmente outro dia ... Minha
mãe apoia o cotovelo direito numa alta coluna e segura na
mão esquerda, caída ao longo do corpo, uma flor. Meu
pai passa o braço por trás das costas de minha mãe
e a sua mão calosa aparece sobre o ombro dela como uma asa.
Ambos pisam acanhados um tapete de ramagens. A tela que serve de
fundo postiço ao retrato mostra umas difusas e incongruentes
arquitecturas neoclássicas". E terminava: "Um dia tinha de
chegar em que contaria estas coisas. Nada disto tem
importância, a não ser para mim. Um avô berbere,
vindo do Norte de Àfrica, um outro avô pastor de
porcos, uma avó maravilhosamente bela, uns pais graves e
formosos, uma flor num retrato - que outra genealogia pode
importar-me? a que melhor árvore me encostaria?"
Escrevi estas palavras há quase trinta anos, sem outra
intenção que não fosse reconstituir e registar
instantes da vida das pessoas que me geraram e que mais perto de
mim estiveram, pensando que nada mais precisaria de explicar para
que se soubesse de onde venho e de que materiais se fez a pessoa
que comecei por ser e esta em que pouco a pouco me vim tornando.
Afinal, estava enganado, a biologia não determina tudo, e,
quanto à genética, muito misteriosos deverão ter
sido os seus caminhos para terem dado uma volta tão larga ...
À minha árvore genealógica (perdôe-se-me a
presunção de a designar assim, sendo tão minguada
a substância da sua seiva) não faltavam apenas alguns
daqueles ramos que o tempo e os sucessivos encontros da vida
vão fazendo romper do tronco central, também lhe
faltava quem ajudasse as suas raízes a penetrar até
às camadas subterrâneas mais fundas, quem apurasse a
consistência e o sabor dos seus frutos, quem ampliasse e
robustecesse a sua copa para fazer dela abrigo de aves migrantes
e amparo de ninhos. Ao pintar os meus pais e os meus avós
com tintas de literatura, transformando-os, de simples pessoas de
carne e osso que haviam sido, em personagens novamente e de outro
modo construtoras da minha vida, estava, sem o perceber, a
traçar o caminho por onde as personagens que viesse a
inventar, as outras, as efectivamente literárias, iriam
fabricar e trazer-me os materiais e as ferramentas que,
finalmente, no bom e no menos bom, no bastante e no insuficiente,
no ganho e no perdido, naquilo que é defeito mas também
naquilo é excesso, acabariam por fazer de mim a pessoa em
que hoje me reconheço: criador dessas personagens, mas, ao
mesmo tempo, criatura delas. Em certo sentido poder-se-á
mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a
página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a
implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que,
sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a
minha vida não tivesse logrado ser mais do que um
esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de
promessa não conseguiram passar, a existência de
alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha
chegado a ser.
Agora sou capaz de ver com clareza quem foram os meus mestres de
vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de
viver, essas dezenas de personagens de romance e de teatro que
neste momento vejo desfilar diante dos meus olhos, esses homens e
essas mulheres feitos de papel e de tinta, essa gente que eu
acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências
de narrador e obedecendo à minha vontade de autor, como
títeres articulados cujas acções não pudessem
ter mais efeito em mim que o peso suportado e a tensão dos
fios com que os movia. Desses mestres, o primeiro foi, sem
dúvida, um medíocre pintor de retratos que designei
simplesmente pela letra H., protagonista de uma história a
que creio razoável chamar de dupla iniciação (a
dele, mas também, de algum modo, do autor do livro),
intitulada Manual de Pintura e Caligrafia, que me ensinou
a honradez elementar de reconhecer e acatar, sem ressentimento
nem frustração, os meus próprios limites: não
podendo nem ambicionando aventurar-me para além do meu
pequeno terreno de cultivo, restava-me a possibilidade de escavar
para o fundo, para baixo, na direcção das raízes.
As minhas, mas também as do mundo, se podia permitir-me uma
ambição tão desmedida. Não me compete a mim,
claro está, avaliar o mérito do resultado dos
esforços feitos, mas creio ser hoje patente que todo o meu
trabalho, de aí para diante, obedeceu a esse propósito
e a esse princípio.
Vieram depois os homens e as mulheres do Alentejo, aquela mesma
irmandade de condenados da terra a que pertenceram o meu avô
Jerónimo e a minha avó Josefa, componeses rudes
obrigados a alugar a força dos braços a troco de um
salário e de condições de trabalho que só
mereceriam o nome de infames, cobrando por menos que nada a vida
a que os seres cultos e civilizados que nos prezamos de ser
apreciamos chamar, segundo as ocasiões, preciosa, sagrada ou
sublime. Gente popular que conheci, enganada por uma Igreja
tão cúmplice como beneficiária do poder do Estado
e dos terratenentes latifundistas, gente permanentemente vigiada
pela polícia, gente, quantas e quantas vezes, vítima
inocente das arbitrariedades de uma justiça falsa. Três
gerações de uma família de componeses, os
Mau-Tempo, desde o começo do século até à
Revolução de Abril de 1974 que derrubou a ditadura,
passam nesse romance a que dei o título de Levantado do
Chão, e foi com tais homens e mulheres do chão
levantados, pessoas reais primeiro, figuras de ficção
depois, que aprendi a ser paciente, a confiar e a entregar-me ao
tempo, a esse tempo que simultaneamente nos vai construindo e
destruindo para de novo nos construir e outra vez nos destruir.
Só não tenho a certeza de haver assimilado de maneira
satisfatória aquilo que a dureza das experiências
tornou virtude nessas mulheres e nesses homens: uma atitude
naturalmente estóica perante a vida. Tendo em conta,
porém, que a liçao recebida, passados mais de vinte
anos, ainda permanece intacta na minha memória, que todos os
dias a sinto presente no meu espírito como uma insistente
convocatória, não perdi, até agora, a
esperança de me vir a tornar um pouco mais merecedor da
grandeza dos exemplos de dignidade que me foram propostos na
imensidão das planícies do Alentejo. O tempo o
dirá.
Que outras lições poderia eu receber de um
português que viveu no século XVI, que compôs as
Rimas e as glórias, os naufrágios e os
desencantos pátrios de Os Lusíadas, que foi um
génio poético absoluto, o maior da nossa Literatura,
por muito que isso pese a Fernando Pessoa, que a si mesmo se
proclamou como o Super-Camões dela? Nenhuma lição
que estivesse à minha medida, nenhuma lição que eu
fosse capaz de aprender, salvo a mais simples que-me poderia ser
oferecida pelo homem Luís Vaz de Camões na sua estreme
humanidade, por exemplo, a humildade orgulhosa de um autor que
vai chamando a todas as portas à procura de quem esteja
disposto a publicar-lhe o livro que escreveu, sofrendo por isso o
desprezo dos ignorantes de sangue e de casta, a indiferença
desdenhosa de um rei e da sua companhia de poderosos, o
escárnio com que desde sempre o mundo tem recebido a visita
dos poetas, dos visionários e dos loucos. Ao menos uma vez
na vida, todos os autores tiveram ou terão de ser Luís
de Camões, mesmo se não escreveram as redondilhas de
Sôbolos rios ... Entre fidalgos da corte e censcores
do Santo Ofício, entre os amores de antanho e as
desilusões da velhice prematura, entre a dor de escrever e a
alegria de ter escrito, foi a este homem doente que regressa
pobre da Índia, aonde muitos só iam para enriquecer,
foi a este soldado cego de um olho e golpeado na alma, foi a este
sedutor sem fortuna que não voltará nunca mais a
perturbar os sentidos das damas do paço, que eu pus a viver
no palco da peça de teatro chamada Que farei com este
livro?, em cujo final ecoa uma outra pergunta, aquela que
importa verdadeiramente, aquela que nunca saberemos se alguma vez
chegará a ter resposta suficiente: "Que fareis com este
livro?" Humildade orgulhosa, foi essa de levar debaixo do
braço uma obra-prima e ver-se injustamente enjeitado pelo
mundo. Humildade orgulhosa também, e obstinada, estar de
querer saber para que irão servir amanhã os livros que
andamos a escrever hoje, e logo duvidar que consigam perdurar
longamente (até quando?) as razões tranquilizadoras que
acaso nos estejam a ser dadas ou que estejamos a dar a nós
próprios. Ninguém melhor se engana que quando consente
que o enganem os outros ...
Aproximam-se agora um homem que deixou a mão esquerda na
guerra e uma mulher que veio ao mundo com o misterioso poder de
ver o que há por trás da pele das pessoas. Ele chama-se
Baltasar Mateus e tem a alcunha de Sete-Sóis, a ela
conhecem-na pelo nome de Blimunda, e também pelo apodo de
Sete-Luas que lhe foi acrescentado depois, porque está
escrito que onde haja um sol terá de haver uma lua, e que
só a presença conjunta e harmoniosa de um e do outro
tornará habitável, pelo amor, a terra. Aproxima-se
também um padre jesuíta chamado Bartolomeu que inventou
uma máquina capaz de subir ao céu e voar sem outro
combustível que não seja a vontade humana, essa que,
segundo se vem dizendo, tudo pode, mas que não pôde, ou
não soube, ou não quis, até hoje, ser o sol e a
lua da simples bondade ou do ainda mais simples respeito.
São três loucos portugueses do século XVIII, num
tempo e num país onde floresceram as superstições
e as fogueiras da Inquisição, onde a vaidade e a
megalomania de um rei fizeram erguer um convento, um palácio
e uma basílica que haveriam de assombrar o mundo exterior,
no caso pouco provável de esse mundo ter olhos bastantes
para ver Portugal, tal como sabemos que os tinha Blimunda para
ver o que escondido estava ... E também se aproxima uma
multidão de milhares e milhares de homens com as mãos
sujas e calosas, com o corpo exausto de haver levantado, durante
anos a fio, pedra a pedra, os muros implacáveis do convento,
as salas enormes do palácio, as colunas e as pilastras, as
aéreas torres sineiras, a cúpula da basílica
suspensa sobre o vazio. Os sons que estamos a ouvir são do
cravo de Domenico Scarlatti, que não sabe se deve rir ou
chorar ... Esta é a história de Memorial do
Convento, um livro em que o aprendiz de autor, graças ao
que lhe vinha sendo ensinado desde o antigo tempo dos seus
avós Jerónimo e Josefa, já conseguiu escrever
palavras como estas, donde não está ausente alguma
poesia: "Além da conversa das mulheres, são os sonhos
que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também
os sonhos que lhe fazem um coroa de luas, por isso o céu
é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens,
se não é a cabeça dos homens o próprio e
único céu". Que assim seja.
De lições de poesia sabia já alguma coisa o
adolescente, aprendidas nos seus livros de texto quando, numa
escola de ensino profissional de Lisboa, andava a preparar-se
para o ofício que exerceu no começo da sua vida de
trabalho: o de serralheiro mecânico. Teve também bons
mestres da arte poética nas longas horas nocturnas que
passou em bibliotecas públicas, lendo ao acaso de encontros
e de catálogos, sem orientação, sem alguém
que o aconselhasse, com o mesmo assombro criador do navegante que
vai inventando cada lugar que descobre. Mas foi na biblioteca da
escola industrial que O Ano da Morte de Ricardo Reis
começou a ser escrito ... Ali encontrou um dia o jovem
aprendiz de serralheiro (teria então 17 anos) uma revista -
"Atena" era o título - em que havia poemas assinados com
aquele nome e, naturalmente, sendo tão mau conhecedor da
cartografia literária do seu país, pensou que existia
em Portugal um poeta que se chamava assim: Ricardo Reis. Não
tardou muito tempo, porém, a saber que o poeta propriamente
dito tinha sido um tal Fernando Nogueira Pessoa que assinava
poemas com nomes de poetas inexistentes nascidos na sua
cabeça e a que chamava heterónimos, palavra que
não constava dos dicionários da época, por isso
custou tanto trabalho ao aprendiz de letras saber o que ela
significava. Aprendeu de cor muitos poemas de Ricardo Reis ("Para
ser grande sê inteiro/Põe quanto és no mínimo
que fazes"), mas não podia resignar-se, apesar de tão
novo e ignorante, que um espírito superior tivesse podido
conceber, sem remorso, este verso cruel: "Sábio é o que
se contenta com o espectáculo do mundo". Muito, muito tempo
depois, o aprendiz, já de cabelos brancos e um pouco mais
sábio das suas próprias sabedorias, atreveu-se a
escrever um romance para mostrar ao poeta das Odes alguma
coisa do que era o espectáculo do mundo nesse ano de 1936 em
que o tinha posto a viver os seus últimos dias: a
ocupaçao da Renânia pelo exército nazista, a
guerra de Franco contra a República espanhola, a
criação por Salazar das milícias fascistas
portuguesas. Foi como se estivesse a dizer-lhe: "Eis o
espectáculo do mundo, meu poeta das amarguras serenas e do
cepticismo elegante. Disfruta, goza, contempla, já que estar
sentado é a tua sabedoria ...".
O Ano da Morte de Ricardo Reis terminava com umas palavras
melancólicas: "Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera".
Portanto, não haveria mais descobrimentos para Portugal,
apenas como destino uma espera infinita de futuros nem ao menos
imagináveis: só o fado do costume, a saudade de sempre,
e pouco mais ... Foi então que o aprendiz imaginou que talvez
houvesse ainda uma maneira de tornar a lançar os barcos
à água, por exemplo, mover a própria terra e
pô-la a navegar pelo mar fora. Fruto imediato do
ressentimento colectivo português pelos desdéns
históricos de Europa (mais exacto seria dizer fruto de um
meu ressentimento pessoal ...), o romance que então escrevi -
A Jangada de Pedra - separou do continente europeu toda a
Península Ibérica para a transformar numa grande ilha
flutuante, movendo-se sem remos, nem velas, nem hélices em
direcção ao Sul do mundo, "massa de pedra e terra,
coberta de cidades, aldeias, rios, bosques, fábricas, matos
bravios, campos cultivados, com a sua gente e os seus animais", a
caminho de uma utopia nova: o encontro cultural dos povos
peninsulares com os povos do outro lado do Atlântico,
desafiando assim, a tanto a minha estratégia se atreveu, o
domínio sufocante que os Estados Unidos da América do
Norte vêm exercendo naquelas paragens ... Uma visão duas
vezes utópica entenderia esta ficção política
como uma metáfora muito mais generosa e humana: que a
Europa, toda ela, deverá deslocar-se para o Sul, a fim de,
em desconto dos seus abusos colonialistas antigos e modernos,
ajudar a equilibrar o mundo. Isto é, Europa finalmente como
ética. As personagens da Jangada de Pedra - duas
mulheres, três homens e um cão - viajam incansavelmente
através da península enquanto ela vai sulcando o
oceano. O mundo está a mudar e eles sabem que devem procurar
em si mesmos as pessoas novas em que irão tornar-se (sem
esquecer o cão, que não é um cão como os
outros ...). Isso lhes basta.
Lembrou-se então o aprendiz de que em tempos da sua vida
havia feito algumas revisões de provas de livros e que se na
Jangada de Pedra tinha, por assim dizer, revisado o
futuro, não estaria mal que revisasse agora o passado,
inventando um romance que se chamaria História do Cerco
de Lisboa, no qual um revisor, revendo um livro do mesmo
título, mas de História, e cansado de ver como a dita
História cada vez é menos capaz de surpreender, decide
pôr no lugar de um "sim" um "não", subvertendo a
autoridade das"verdades históricas". Raimundo Silva, assim
se chama o revisor, é um homem simples, vulgar, que só
se distingue da maioria por acreditar que todas as coisas
têm o seu lado visível e o seu lado invisível e
que não saberemos nada delas enquanto não lhes tivermos
dado a volta completa. De isso precisamente se trata numa
conversa que ele tem com o historiador. Assim: "Recordo-lhe que
os revisores já viram muito de literatura e vida, O meu
livro, recordo-lho eu, é de história, Não sendo
propósito meu apontar outras contradições, senhor
doutor, em minha opinião tudo quanto não for vida
é literatura, A história também. A história
sobretudo, sem querer ofender, E a pintura, e a música, A
música anda a resistir desde que nasceu, ora vai, ora vem,
quer livrar-se da palavra, suponho que por inveja, mas regressa
sempre à obediência, E a pintura, Ora, a pintura
não é mais do que literatura feita com pincéis,
Espero que não esteja esquecido de que a humanidade
começou a pintar muito antes de saber escrever, Conhece o
rifão, se não tens cão caça com o gato, ou,
por outras palavras, quem não pode escrever, pinta, ou
desenha, é o que fazem as crianças, O que você
quer dizer, por outras palavras, é que a literatura já
existia antes de ter nascido, Sim senhor, como o homem, por
outras palavras, antes de o ser já o era, Quer-me parecer
que você errou a vocação, devia era ser
historiador, Falta-me o preparo, senhor doutor, que pode um
simples homem fazer sem o preparo, muita sorte já foi ter
vindo ao mundo com a genética arrumada, mas, por assim
dizer, em estado bruto, e depois não mais polimento que
primeiras letras que ficaram únicas, Podia apresentar-se
como autodidacta, produto do seu próprio e digno
esforço, não é vergonha nenhuma, antigamente a
sociedade tinha orgulho nos seus autodidactas, isso acabou, veio
o desenvolvimento e acabou, os autodidactas são vistos com
maus olhos, só os que escrevem versos e histórias para
distrair é que estão autorizados a ser autodidactas,
mas eu para a criação literária nunca tive jeito,
Então, meta-se a filósofo, O senhor doutor é um
humorista, cultiva a ironia, chego a perguntar-me como se dedicou
à história, sendo ela tão grave e profunda
ciência, Sou irónico apenas na vida real, Bem me queria
a mim parecer que a história não é a vida real,
literatura, sim, e nada mais, Mas a história foi vida real
no tempo em que ainda não se lhe poderia chamar
história, Então o senhor doutor acha que a
história e a vida real, Acho, sim, Que a história foi
vida real, quero dizer, Não tenho a menor dúvida, Que
seria de nós se o deleatur que tudo apaga não
existisse, suspirou o revisor". Escusado será acrescentar
que o aprendiz aprendeu com Raimundo Silva a lição da
dúvida. Já não era sem tempo.
Ora, foi provavelmente esta aprendizagem da dúvida que o
levou, dois anos mais tarde, a escrever O Evangelho segundo
Jesus Cristo. É certo, e ele tem-no dito, que as
palavras do título lhe surgiram por efeito de uma
ilusão de óptica, mas é legítimo
interrogar-nos se não teria sido o sereno exemplo do revisor
o que, nesse meio tempo, lhe andou a preparar o terreno de onde
haveria de brotar o novo romance. Desta vez não se tratava
de olhar por trás das páginas do Novo Testamento
à procura de contrários, mas sim de iluminar com uma
luz rasante a superfície delas, como se faz a uma pintura,
de modo a fazer-lhe ressaltar os relevos, os sinais de passagem,
a obscuridade das depressões. Foi assim que o aprendiz,
agora rodeado de personagens evangélicas, leu, como se fosse
a primeira vez, a descrição da matança dos
Inocentes, e, tendo lido, não compreendeu. Não
compreendeu que já pudesse haver mártires numa
religião que ainda teria de esperar trinta anos para que o
seu fundador pronunciasse a primeira palavra dela, não
compreendeu que não tivesse salvado a vida das crianças
de Belém precisamente a única pessoa que o poderia ter
feito, não compreendeu a ausência, em José, de um
sentimento mínimo de responsabilidade, de remorso, de culpa,
ou sequer de curiosidade, depois de voltar do Egipto com a
família. Nem se poderá argumentar, em defesa da causa,
que foi necessário que as crianças de Belém
morressem para que pudesse salvar-se a vida de Jesus: o simples
senso comum, que a todas as coisas, tanto às humanas como
às divinas, deveria presidir, aí está para nos
recordar que Deus não enviaria o seu Filho à terra, de
mais a mais com o encargo de redimir os pecados da humanidade,
para que ele viesse a morrer aos dois anos de idade degolado por
um soldado de Herodes ... Nesse Evangelho, escrito pelo
aprendiz com o respeito que merecem os grandes dramas, José
será consciente da sua culpa, aceitará o remorso em
castigo da falta que cometeu e deixar-se-á levar à
morte quase sem resistência, como se isso lhe faltasse ainda
para liquidar as suas contas com o mundo. O Evangelho do
aprendiz não é, portanto, mais uma lenda edificante de
bem-aventurados e de deuses, mas a história de uns quantos
seres humanos sujeitos a um poder contra o qual lutam, mas que
não podem vencer. Jesus, que herdará as sandálias
com que o pai tinha pisado o pó dos caminhos da terra,
também herdará dele o sentimento trágico da
responsabilidade e da culpa que nunca mais o abandonará, nem
mesmo quando levantar a voz do alto da cruz: " Homens,
perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez", por certo
referindo-se ao Deus que o levara até ali, mas quem sabe se
recordando ainda, nessa agonia derradeira, o seu pai
autêntico, aquele que, na carne e no sangue, humanamente o
gerara. Como se vê, o aprendiz já tinha feito uma larga
viagem quando no seu herético Evangelho escreveu as
últimas palavras do diálogo no templo entre Jesus e o
escriba: "A culpa é um lobo que come o filho depois de ter
devorado o pai, disse o escriba, Esse lobo de que falas já
comeu o meu pai, disse Jesus, Então só falta que te
devore a ti, E tu, na tua vida, foste comido, ou devorado,
Não apenas comido e devorado, mas vomitado, respondeu o
escriba".
Se o Imperador Carlos Magno não tivesse estabelecido no
Norte da Alemanha um mosteiro, se esse mosteiro não tivesse
dado origem à cidade de Münster, se Münster
não tivesse querido assinalar os mil e duzentos anos da sua
fundação com uma ópera sobre a pavorosa guerra que
enfrentou no século XVI protestantes anabaptistas e
católicos, o aprendiz não teria escrito a peça de
teatro a que chamou In Nomine Dei. Uma vez mais, sem outro
auxílio que a pequena luz da sua razão, o aprendiz teve
de penetrar no obscuro labirinto das crenças religiosas,
essas que com tanta facilidade levam os seres humanos a matar e a
deixar-se matar. E o que viu foi novamente a máscara
horrenda da intolerância, uma intolerância que em
Münster atingiu o paroxismo demencial, uma intolerância
que insultava a própria causa que ambas as partes
proclamavam defender. Porque não se tratava de uma guerra em
nome de dois deuses inimigos, mas de uma guerra em nome de um
mesmo deus. Cegos pelas suas próprias crenças, os
anabaptistas e os católicos de Münster não foram
capazes de compreender a mais clara de todas as evidências:
no dia do Juízo Final, quando uns e outros se apresentarem a
receber o prémio ou o castigo que mereceram as suas
acções na terra, Deus, se em suas decisões se rege
por algo parecido à lógica humana terá de receber
no paraíso tanto a uns como aos outros, pela simples
razão de que uns e outros nele crêem. A terrível
carnificina de Münster ensinou ao aprendiz que, ao
contrário do que prometeram, as religiões nunca
serviram para aproximar os homens, e que a mais absurda de todas
as guerras é uma guerra religiosa, tendo em
consideração que Deus não pode, ainda que o
quisesse, declarar guerra a si próprio ...
Cegos. O aprendiz pensou: "Estamos cegos", e sentou-se a escrever
o Ensaio sobre a Cegueira para recordar a quem o viesse a
ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a
vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias
insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal
tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de
respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu
semelhante. Depois, aprendiz, como se tentasse exorcizar os
monstros engendrados pela cegueira da razão, pôs-se a
escrever a mais simples de todas as histórias: uma pessoa
que vai à procura de outra pessoa apenas porque compreendeu
que a vida não tem nada mais importante que pedir a um ser
humano. O livro chama-se Todos os Nomes. Não
escritos, todos os nossos nomes estão lá. Os nomes dos
vivos e os nomes dos mortos.
Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das
vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem
dizer, mais voz que a voz que elas tiverem. Perdoai-me se vos
pareceu pouco isto que para mim é tudo.
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MLA style: "José Saramago - Nobel Lecture: De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz". Nobelprize.org. 24 May 2013 http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1998/saramago-lecture-p.html

